sexta-feira, novembro 14, 2003

Mas é bem isso, Dema... viajar, viajou, mas é isso mesmo.
Se a gente se prende ao sentido das palavras que lê, acaba acrescentando muito mais da gente mesmo do que captando o que quem escreveu quis dizer. Num blog que leio, tem uma citação de Proust: "Todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo".
Acho que o melhor jeito de ler aquilo que não é unicamente transmissão de conhecimento, aquilo que é pra ser sentimento ou imagem, é dessa forma - despindo-se das próprias crenças e deixando o conjunto da leitura causar a reação ou identificação que tiver de causar. Sem procurar. Apenas refletir a luz que vem externa, deixando a essência da gente, aquilo que a gente é, espontânea e autenticamente, realçar algum aspecto, absorver outro, abafar um terceiro.
Novas crenças terão chance de se formar nesse processo, desde que não se coloque as antigas como uma barreira, um filtro. Elas já fizeram o papel delas moldando o que hoje é a expressão mais autêntica da gente, não precisam sempre ser reafirmadas racionalmente, sob o risco de se petrificar e de se eternizar aquilo que foi infinito num instante.
Tamos falando de amor, da vida, do que, de tudo isso!

At 13:39 13/11/2003, Dema wrote:
ou não .Não sei porque, mesmo não tendo entendido bem , sinto que tem muito a ver comigo. Isto me ajudou a comprender que muitas vezes o que nos pega não é o sentido lógico e racional das palavras que lemos ou ouvimos. É a forma , a primeira impressão , um conjunto de coisas que nos causa uma reação ou identificação , mesmo sem sabermos porque.
Como cada vez mais , jogo fora as teses e as crenças que fui juntando pela vida, e sinto que não podem justificar ou explicar o que penso ou faço hoje, sinto que o que mais nos puxa a atenção , ou comove, ou sei lá, nos faz parar para pensar, é a idéia diferente que vem misturada com palavras, momentos, sentimentos, formas. Naquela hora tem sentido em outra nunca.
Caminhando ao lado de tudo isso , tem o político e o social, não programa de Pt, mas aquilo que vimos e vivemos e passamos a acreditar durante nossa vida, a partir dos exemplos do nosso vizinho, da empregada doméstica, do patrão,da escola, do trabalho, da rua, do gremio, do futebol, da namorada, e do jornal e do livro.
tamos falando de amor ,de vida ,do quê ?

quarta-feira, novembro 12, 2003

A entrega e a dúvida

Não vou falar de quando alguém escolhe dividir suas energias entre duas opções não mutuamente exclusivas, como ter dois empregos, dois filhos ou dois hobbies - ou todos eles ao mesmo tempo.
Também não vou me referir a possibilidades passadas, com efeitos extintos, como a dúvida sobre o amor de uma pessoa que não faz mais parte da vida presente. Nem, muito menos, tratar de hipóteses que já não se verificaram, o velho e perigoso "e se tivesse...".

Quero apenas divagar sobre quando há duas possibilidades para o mesmo fato ou evento, e elas determinam formas diferentes de agir, reagir, sentir e pensar. Nesse caso, qualquer que seja a escolha, não há como se entregar integralmente a ela. Sempre haverá espeço reservado para a dúvida, por menor e mais controlado que seja ele.

E quero colocar em questão a situação em que alguém sabe a verdade sobre este fato ou evento e se nega a revelá-la. Mais especificamente, ainda, quando cobra, de quem não sabe, uma decisão.

E ainda há nuances possíveis. O alguém que sabe pode sugerir que não sabe, ou mesmo mentir e dizer que não sabe. Ou pode dizer que sabe - ou não ter como esconder - mas recusar-se claramente a dizer o que sabe.

Ou esse alguém não tem a confiaça do outro. Ou pode a ter tido e a ter posto em dúvida tendo afirmado ora uma, ora outra possibilidade e, então, de novo a primeira... e depois jura que está falando a verdade agora, que mentiu antes. Apenas a prova material e concreta poderá restaurar a confiança. Não bastam circunstâncias, evidências ou juras. Ou não?

quinta-feira, outubro 23, 2003

De aranhas e outros bichos - humanos....

A grande Amizade é um acordo tácito, um compromisso construído no tempo ao invés de assumido num momento uma promessa velada em silêncio plácido, além de outras coisas mais.
Quando um amigo pisa na bola, falta, dá mancada, o outro sente a dor e precisa aliviar-se, por isso reclama. E conta com o ouvido do amigo que, antes, sempre estava pronto a ouvir. Reclama a dor sofrida no fato, e pior, reclama a dor de ter de cobrar algo que já era conquista sólida e a dor de colocar o amigo em constrangimento.
Se o amigo falho se retrata, tem início uma nova construção, remenda-se a teia. Por vezes mais reforçada e sólida, por outras, apenas o suficiente para tapar o buraco, para segurar a estrutura, mas não vai pegar mais nada. Mas quando se afirma no erro, não tem mais volta: por aquele vão, voam insetos, à procura de podridão da qual alimentar, mas quem se importa, há apenas a lembrança, por vezes dolorosa, devido à falta que faz o seu objeto, de tempos e de eventos em que uma gota de orvalho podia escorrer pelos fios e encostar-se numa ligação, para descansar e refratar a luz do sol, em pontos multicoloridos no espaço preenchido ao redor.
Pior ainda é quando dá de ombros. Quando nem lamentar consegue. Quer dizer que ele não vai nem deixar os fios estruturais. Recolhe mesquinhamente a parte que acredita que lhe cabe naquele espólio e acha que vai ser capaz de usar o material em outro canto. Engana-se. Isto vai apodrecer no seu quartinho dos fundos, e pode ser que ninguém volte a mexer lá, mas também pode ser que aconteça, e daí sabe-se lá quanto escuro vai engolir a luz, quando a porta se abrir.
... ... ...
Assim se desintegra uma relação. E, muitas vezes, outras relações ao redor. Assim se afastam os amigos, se separam os casais, se dividem os grupos de amigos. Não somente assim, felizmente, pois há os casos catalisados pela distância, outros por divergências de interesses, pela interferência de interessados, tantos outros motivos, mas nesses casos, nunca se perde o respeito, a beleza da memória.
E o que mais é viver senão tecer relações enquanto se vê terminarem as anteriores? É impossível manter tudo como está, especialmente quando parece tudo perfeito. A perfeição é um instante infinito. No outro instante pode já não haver mais coisa alguma, e no entanto, a grandiosidade da perfeição continua lá, naquele instante que já não se tem mais. Construir novamente é o que sobra como única opção ao se deixar definhar e morrer de solidão.
Recriar eterno, sempre revolução, assim como é desde o nível molecular ao biológico ao ecológico e, por fim, até o social.

terça-feira, outubro 14, 2003

Operações básicas

No CD Domínio Público da Caboclada, a 13a. faixa é um remix de outra faixa do disco. Após alguns minutos, silencia e fica assim por algo perto de 10 minutos, quando volta com uma canção cuja letra e autoria não estão expressos no disco... mas que diz, em seu refrão "Vamos somar, vamos multiplicar, para dividir, para não subtrair / vamos somar, vamos multiplicar, para diminuir, para não subtrair". Gostei muito. Neste momento, eu estava lendo As Conexões Ocultas, do Fritjof Capra, e no fim do quarto capítulo, dedicado às organizações empresariais e à microeconomia, ele diz:
"A enorme carga de trabalho dos executivos atuais é uma das conseqüências diretas do conflito entre o tempo biológico e o tempo dos computadores. O trabalho deles está cada vez mais computadorizado; e, à medida que a tecnologia dos computadores progride, esas máquinas trabalham cada vez mais rápido e assim economizam cada vez mais tempo. A questão de saber o que fazer com o tempo que sobra se torna uma questão de valores. O tempo pode ser distribuído entre os indivíduos que compõem a organização - criando-se um tempo para que elas reflitam, organizem-se, façam contatos e reúnam-se para conversas informais - ou pode ser subtraído da organização e transformado em mais lucro para os acionistas e executivos de primeiríssimo escalão - obrigando-se as pessoas a trabalhar mais e, assim, aumentar a produtividade da empresa."

Devo acrescentar que ele acabara de analisar o tempo de refletir como um aspecto essencial da natureza humana - o que a diferencia do resto do mundo natural; a organização e o estabelecimento de contatos como um aspecto essencial de toda a natureza; e as conversas informais como as sementes da comunidades de prática, um conceito de organização subjacente às organizações formais e responsável, em grande medida, pelo equilíbrio dinâmico e pelo avanço destas últimas. Ou seja, aspectos que merecem tempo, caso a organização não pretenda se estagnar e quebrar tal qual uma ponte construída rígida num vale com ventos fortes.

Agradável coincidência numa noite fria de terça-feira intoxicada por um exagero de cogumelos mal cozidos de ontem.

quem acha que isso tem que mudar poe o dedo aqui...

Tava relendo, agora na madruga, a matéria da Exame que o Fran circulou na lista, semana passada. E que o Babel respondeu com um questionamento tão flamejante e veemente, a que dou meu completo apoio. O título desta colocação é a pergunta central e crucial da resposta do Babel. Com sua licença, Babel, copio aqui suas reflexões sobre o artigo...

Essa é a doença da otimização infinita do liberalismo... todos temos que ser ótimos, nós e nossos filhos temos que falar inglês, espanhol e preferencialmente mais uma língua, além do português, temos que entender da nossa graduação e de tudo o que possa e não possa se relacionar com ela, temos que ser "pró-ativos", "hands on", estratégicos, temos que "agregar valor" a nossoas empresas, trabalhar o quanto for necessário para o "atingimento" de metas, ainda fazer esportes 3 vezes por semana para não sermos "sedentários", arranjar tempo pra família inclusive tempo marital, tempo paterno, tempo filial, tempo netal, etc...tempo pros amigos, pra ir ao médico, ao dentista, cuidar da mente... Ah, temos que ganhar dinheiro para pagar esse "estilo liberal de vida" e tudo isso em uma semana DE 7 DIAS...

fueda, hein? quem acha que isso tem que mudar põe o dedo aqui...
quem acha que isso pode mudar? quem acha que isso deve mudar?


Babel


Interrompo só para dizer que a "otimização infinita do liberalismo" é a nhaca que é porque tem como variável a ser otimizada apenas o dinheiro no bolso. Quando for buscada a otimização das possibilidades para as gerações futuras, aí sim teremos um outro mundo.

Ah, esqueci da "Educação Continuada"... temos que estudar, fazer pós, fazer MBA, normalmente apenas para a obtenção do título (a vida imita o "banco imobiliário", compremos um diploma e um título...), pois quem trabalha em empresa sabe que o que faz a sua diferença profissional não é sua competência, nem sua pró-atividade, mas sim seu endomarketing, (ó ele ai de novo...), sua lábia, a sua "inteligência emocional"...

Vejam que esse exemplo por si só serve para mostrar como o "liberalismo" econômico, a despeito do que prega, não propicia uma mobilidade social... pelo contrário, quem tem mais, terá sempre mais, quem tem menos, terá sempre menos - é um determinismo, chega a ser um "Darwinismo econômico"...pagar esse estilo de vida é coisa pra quem já nasceu podendo pagar... Me respondam, meus caros e muito respeitados amigos liberais presentes nessa lista, eu não quero ser "flamejante" em minha crítica, mas não dá pra não ser...

Babel


De fato, pagar por um estilo de vida que lhe vai extorquir um pouco mais a cada dia é insustentável. Tou fora. Ou pelo menos a caminho.

Vou continuar estudando sim, mas apenas pelo meu bastante egoísta prazer de saber mais um pouquinho por nada. Pra poder plantar uma rosa no outono e vê-la iluminar dias cinzentos de inverno. Para ler os clássicos do século passado e perceber as referências mais sutis aos dos séculos anteriores. Pra tocar um violão meia-boca pra menos de meia dúzia que vai querer ouvir um amador sem futuro. Pra fazer pão integral no sábado à tarde. Se eu achar por onde fazê-lo, diminuo um pouco o egoísmo desses prazeres compartilhando-os com os amigos.

Vou fazer o que eu quero fazer e se não puder sobreviver, serei um fracassado num mundo em que o sucesso é uma subida íngreme que se afunila, tornando a prosperidade cada vez mais difícil, e se torna escorregadia, aumentando a cada minuto o risco de alguém rolar lá de cima até o fundo do vale, talvez carregando outros na queda. Mas só neste mundo. Porque o mundo não é algo que está lá fora. Está sim dentro de cada um. O grande problema é que botaram em nossas cabeças que o mundo é assim e pronto. Criaram, cultivam e incentivaram o apego ao ponto de o bem que ele fazia a uma comunidade ter-se transformado na base de todo o mal moderno.

Vou tomar uma via lateral. E daí se ela for sem saída? Ou se conduzir inexoravelmente para baixo? Tomo outro. Volto atrás, até se for o caso. Mas ficar aqui não dá mais. É insustentável. A vida que estamos levando não apenas é insatisfatória e fadada à frustração e à desilusão (ou à ilusão eterna, para aqueles que se lhe permitem), como também diminui, a cada geração, as chances de que seja diferente para as próximas.

A única sustentabilidade possível está em fazer o que quer que seja de maneira que as possibilidades de quem vem depois sejam, no mínimo, iguais. E não estou falando de herança financeira - de que adiantará ter mais dinheiro, se houver mais insatisfação, violência, isolamento? Tem de ser possível para nossos filhos (infelizmente não os tenho ainda), sobrinhos, amiguinhos deles e também para o japonezinho do outro lado do planeta, e todas as crianças daqui até ele, por qualquer lado que se resolva ir até lá, ter uma visão do mundo melhor do que a nossa.

Vou fazer o que quero fazer e realizar-me no mundo como eu o vejo. Se for loucura, encontramo-nos do lado de dentro do hospício. Ou comprando prozac na farmácia mais próxima.

Bom dia para todos.
Inclusive para os respeitados liberais.
Cada um na sua, - afinal, a proibição e a censura não são sustentáveis - mas com alguma coisa em comum - o mesmo mundo.

quinta-feira, outubro 02, 2003

O Desafio de Carol

Primeiro, desculpe a pretensão de supor suas intenções não reveladas, Carol. Essa ilusão por mim criada serve de gancho para eu poder elocubrar...

Desde que começou a escrever no Brioco, Carol nos coloca de maneiras bastante simples uma questão que remonta à origem desta lista. Como todos os sábios, ela não tem todas as respostas, mas sabe formular as perguntas certas. Ela pergunta sempre "o porquê".

Por que levantar esses problemas? Por que discutir essas "coisas tristes"? Por que sermos hipócritas se todos gostamos de viver bem, amamos nossos luxos, mordomias e dinheiro? Porque se preocupar com a pobreza, a impunidade, a injustiça social, as guerras, etc., etc., se nada muda, nunca, e nem vai mudar, não importa o que façamos? Pra que discutir? Pra que encher a nossa cabeça com (mais) problemas, sendo que é bom, traz prazer e alívio, extravasar bebendo, cantando, dançando e se soltando, deixando ir embora as minhocas já existentes em nossas cabeças, ao invés de criarmos oportunidades estúpidas de nos abastecermos com novas minhocas, nossas e dos outros...

Carol nos provoca. Com veia de artista da comunicação que é, simula alguém que não liga pra nada, só pra ver o circo pegar fogo. Na sua simulação, mostra um mundo de pessoas reais que nos cercam. Aquelas pessoas que não permitem que a dor os toque, que a consciência os chame, aquelas pessoas que se alienam em seus mundos perfeitos. Aquelas pessoas a quem gostaríamos de dizer assim: "Acorda!!!!"... E talvez essa pessoa esteja muito próxima. Não, não estou falando do vizinho que leva o poodle pra passear e vê faustão e fantástico no domingo, nem daquele crente do seu trabalho, para quem Deus e Jesus são solução pra tudo, nem de ninguém em especial... mas talvez eu esteja falando de nós, Briocos bem estudados e vividos, que xingamos, reclamamos, nos criticamos, mas simplesmente não saímos dessa. Criar algo novo, para nós é pouco mais do que fazer um blog, que não é nada... e nada é muito pouco.

O que fazer? Não sei, somos + ou - 30, não me peçam pra representá-los...

Talvez o uníco mérito dessa lista seja manter ativa algumas discussões, bem como as mentes que as conduzem. Não sei, às vezes acho isso bem pouco, como já disse. Outras vezes acho que é um caminho, ao menos, de não nos acomodarmos por completo, mantendo a capacidade crítica de nossos cérebros, já que os corpos pouco se movem.

terça-feira, setembro 30, 2003

Magoa

Por quanto tempo alguém consegue carregar uma mágoa? Parece incrível, mas aparentemente é possível se manter magoado durante uma vida inteira. E deve ser mesmo possivel, afinal, para que perdoar alguém que lhe causou uma ferida? Lembrar da pessoa dói, lembrar da ferida sendo feita dói, olhar a cicatriz que foi um dia uma ferida aberta causada por alguém, isso dói.

Me pergunto se seria cristão demais dizer que a dor deveria servir para algo, tipo crescimento. E me pergunto se não seria cristão de menos deixar de perdoar. Ou pelo menos ter uma medida que diferenciasse as mágoas banais das mágoas profundas... mas... cada indivíduo é um. Eu tolero por a mão no fogo por 2 segundos, alguma outra pessoa agüenta 4 segundos, alguns fenômenos podem chegar a 8 segundos. Ninguém sente igual. Se eu puxar seu cabelo e se você puxar o meu, quem sentirá mais dor?

Então eu chego a conclusão de que as guerras são justificáveis, pois todas as mágoas são justificáveis. Palestinos e Israelenses, EUA e resto do mundo, todos têm seus motivos, todos sabem onde o calo aperta. E assim, acabamos com o mundo...

Somos estúpidos, brutos. Nos falta lapidação. Nossas emoções têm que ser intensas para que possamos perceber algo, pois não somos sutis, e não percebemos sutilezas. Gritar um jogo de futebol é necessário. Rasgar a garganta é necessário. Mostrar o ímpeto é necessário.

Ou será que tem outra forma?

A Marca da Besta

A maioria dos boletos bancários do Banco do Brasil que caem na minha mão não podem ser pagos em outro lugar sem ser o próprio Banco do Brasil.

Eu fiquei uma hora inteira numa fila, olhando prum boleto com um código de barras, me perguntando o porquê daquele código de barras, e me lembrei da marca da Besta, que todos carregaríamos um dia, segundo as profecias bíblicas - só não sabia que seria a marca da Besta Quadrada...

O purgatório, além dos açoites e do óleo fervente, deve ser uma fila eterna...

quarta-feira, setembro 24, 2003

8 segundos

Tomo condução vários dias por mês. No horário que saio de casa, sai também um homem de chapéu, bem capiau, empurrando uma cadeira de rodas com um menino de uns 17 anos. Eles vão em direção à marginal da Rubem Berta. Acontece que essa rua em que caminhamos vira uma curta e íngreme ladeira até desembocar na tal marginal. Todas as vezes, o pai empurra a cadeira de rodas numa velocidade "alta". Algo que provavelmente provoca um frio na barriga do menino, ou talvez outro tipo de sensação de prazer.

Não sei se ele é um bom pai. Não sei se o menino é feliz ou não. Assim como não sei o que ocorreu com o menino, muito menos sei pra onde eles vão todos os dias. Sei que aqueles 8 segundos têm algo de especial, são 8 segundos de doação. Este momento está impregnado de algo que desejamos ver e fazer mais na nossa vida e na dos que nos rodeiam. Queria congelar esses 8 segundos e roubar um pouco de sua essência, e usar isso indiscriminadamente por ai...

segunda-feira, setembro 22, 2003

Dia Mundial Sem Carro

E os paulistanos fingiram que não era com eles...

Da Agência Terra:

Quase mil cidades, em sua maioria européias, participam hoje do Dia Internacional sem Carro. O evento deve contar com a participação de 98 milhões de pessoas.

O dia sem automóveis foi criado em 1998 na França por iniciativa da então ministra do Meio Ambiente Dominique Voynet. Rapidamente, a idéia foi adotada por outras cidades da Europa. O objetivo é fazer com que os cidadãos deixem seus veículos em casa e utilizem os meios de transporte públicos, o que reduz a poluição nos grandes centros.

Cidades de praticamente todos os países europeus participam na operação, com exceção da Rússia, impedindo o tráfico de automóveis em seu centro ou em parte dele. Por outro lado, quase todas as cidades asiáticas ignoram a iniciativa da Europa.

No Brasil, dez cidades participam no evento, mas o Rio de Janeiro e a capital Brasília ficaram de fora. Na América Latina, se destacam as cidades de Bogotá (Colômbia), que tem a particularidade de celebrar dois dias sem automóvel por ano, e Buenos Aires (Argentina).

No Canadá, a cidade de Montreal também aderiu ao movimento.

Na França, além da capital Paris, que impede o trânsito em um grande perímetro de seu centro, também se destacam as cidades de Lyon, Lille, Rennes e Estrasburgo Porém, como este ano o dia sem automóveis caiu em uma segunda-feira, algumas cidades francesas decidiram antecipar a idéia para sábado ou domingo.

A Espanha, com mais de 200 cidades, é o país com o maior número de municípios participando na operação, superando Áustria (160), Alemanha (80) e França (72). Na Itália, o dia sem carro não motivou as autoridades. Apenas onze cidades, incluindo Palermo, Siena, Pádua e Brescia, proibiram parcialmente o uso dos automóveis, mas outras aderiram oficialmente ao movimento.

Em Roma, por exemplo, as autoridades disponibilizaram bicicletas para a população em alguns bairros e organizaram eventos explicativos, mas não interromperam o trânsito. Na Grã-Bretanha, 62 cidades, incluindo Londres, participam no dia. A iniciativa mais importante foi adotada no bairro dos museus da capital, onde várias ruas foram fechadas ao tráfico. Uma delas, inclusive, permanecerá fechada durante os próximos seis meses.

Em Atenas, muitas pessoas preferiram caminhar. Além disso, filas podiam ser observadas nos pontos de ônibus e o trânsito não registrava os problemas habituais. Porém, mais do que o dia sem automóveis, as causas para a mudança foram a greve dos táxis e dos postos de serviço.

Na Ásia, Taiwan foi o único país a aderir à idéia. Em Taipé e outras grandes cidades do país, milhares de taiwaneses optaram pelas bicicletas ou patins. Além disso, os meios de transporte públicos reduziram o preço de suas tarifas à metade.

segunda-feira, setembro 08, 2003

Mundo desequilibrado

Em recente e acalorada troca de emails - infelizmente ninguém publicou aqui - uma de nossas novas colegas de pruridos, a Clarissa, levantou uma questão mais profunda, um pano de fundo para vários aspectos discutidos:

"A continuarmos com essa visão que nos é imposta desde antes do nascimento - individualismo, consumismo, competição - e não vamos muito longe."

São aspectos de uma maneira de encarar o mundo de que nem nos damos conta, tantos séculos que eles estão aí. Entristeço-me ao pensar que foram pessoas bem intencionadas e que realmente fizeram muito pela humanidade que, como efeito colateral de suas idéias avançadas em suas épocas, formaram esse paradigma - Newton, Galileu, Descartes...
Sim, vieram deles e de contemporâneos seus a visão do mundo como uma dádiva a ser explorada pela humanidade, mais especificamente pelo homem, aqui no sentido masculino mesmo, não genérico da espécie, e a visão de organismos como máquinas.
Gostaria muito de poder falar com fluência e clareza sobre o novo paradigma da ecologia profunda, em oposição à ecologia "rasa" que perpetua aqueles valores mecanicistas e reducionistas, na medida em que considera que preservar
o ambiente é necessário para que a humanidade continue dispondo de seu parque de diversões. Mas, não por brevidade e sim por falta de habilidade, e à parte quaisquer valores espirituais, que isso é assunto pra toneladas de
bytes, e qualquer que seja a crença de cada um, este paradigma é cabível, pois não coloca restrições nem imposições sobre estes valores - vamos resumir a causa como uma visão orgânica em que o ser humano é parte do mesmo ambiente que todos os outros animais, plantas, fungos, bactérias e pedras que ele mesmo vem, indevidamente, considerando propriedade sua. Somos parte do ecossistema, e não apenas usuários ou usufrutuários dele.
Uma das principais contribuições deste novo paradigma é a noção de que o todo é maior do que a soma das partes - o comportamento emergente de sistemas complexos, desde o nível subatômico até o social, os estados de equilíbro dinâmico nas relações entre as partes do todo e as transições de um estado de equilíbrio para outro, através de crises.
E outra foi trazer à baila outras questões que até poderiam ter sido abordadas sem sua existência, mas que ficaram obliterados pelas conseqüências funestas da visão autoritária, mecanicista e reducionista dos últimos séculos. O que mais me chama a atenção é que a humanidade tem explorado recursos sem se dar conta de que eles são finitos. E não falo de coisas como petróleo ou minerais, mas por exemplo, da água e do ar, dos quais já se tem percebido, últimamente, o abuso que se tem feito.
O consumismo e a concentração de renda (e de propriedades) são reflexo direto da idéia de que se deva crescer sempre, que por sua vez o é da falta de noção da limitação dos recursos. A violência e a desordem, obviamente, resultados dessa concentração de renda e da contradição entre a mentalidade consumista e a falta de poder de compra.

Ando meio ausente, mas assim que puder, gostaria muito de retomar - à luz destas colocações - alguns dos problemas discutidos naquela efervescente troca de emails, já que eles foram analisados por enfoques distintos como os de alguns partidos e outros apartidários, mas todos - exceto o comentário da Clarissa, citado lá em cima - baseados em visões nascidas dentro do mesmo paradigma reducionista e individualista. Ou talvez outros problemas, de discussões vindouras, já que sabe-se lá quando vou conseguir fazer isto.

segunda-feira, agosto 25, 2003

Por que as coisas acabam?

A pergunta é infantil, eu sei. Por isso, deve ser uma boa pergunta. Eu, ao menos, nunca consegui responder isso a contento. Já rompi com muitas pessoas, já deixei de ver amigos de infância, turmas inteiras do colégio,do ginásio, da faculdade, namoradas que não viraram amigas e de quem eu pouco ou nada sei - pessoas que tveram relevãncia e hoje significam uma memória.

Já ouvi falar que nós nos metemos em determinadas situações com determinadas pessoas porque precisamos disso para crescer. Sou meio contra essa visão utilitarista, mas o fato é que ela parece ser algo verdadeira. OU não sabemos o que fazer com certos constrangimentos que a vida nos faz passar e definimos que é mais fácil "matar" aquela pessoa do que tentar renovar a relação, mesmo que isso signifique partir do amor para a amizade ou da amizade para um nivel acima de intimidade e compreensão das necessidades do outro.

Só pra citar outra visão infantil (maturidade e frieza são coisas que andam de mãos dadas, daia dificuldade que muitos têm de se entregar e brincar com crianças, como as crianças), lembro-me de Fernão Capelo Gaivota, que pegava caronas em aves e afins para visitar alguém que aniversariava, e os bichos sempre o inqueriam sobre termos como "longe" (se vc gosta de alguém, você já está do lado desta pessoa), entre outros. Me pergunto se deixarei de querer bem um amigo que o tempo cuidou de levar pra longe, ou mesmo que desentendimentos tenham resultado no afastamento.

O que significam nossas relações? E quando elas se quebram, o que fazemos com tal significado? Um significado necessita de um significante (algo que signifique). OU não mais precisamos daquele significado, e não faz sentido mantermos em nossa mente alguém que significa algo que não queremos na nossa vida - este raciocínio estaria perfeito, se não fosse tão determinista... afinal, impede alguém que significa algo de poder mudar.

segunda-feira, agosto 18, 2003

Ferida

Inicio e fim abruptos tornaram as coisas momentaneamente melancólicas.

Olhar a indiferença traz dor; se ver na indiferença causa repulsa.

Trago comigo uma mochila de atitudes inconseqüentes. Para algumas delas digo "Graças". Para outras, não digo nada, a fim de não ouvir o que penso.

quinta-feira, agosto 14, 2003

pureza fraca

Uma olhada em e-mails de outras épocas me deixaram um tanto quanto pensaroso, e talvez outro tanto nostálgico. As idéias fluiam mais e melhor. Talvez porque o meio, e-mail, fosse mais novo e enchesse menos a paciência. Talvez porque tivéssemos mais tempo, e mais paciência. Talvez tivéssemos mais ânimo e sede. Talvez precisássemos mais.

Temo um mundo onde não haja a diferença. A diferença é o que faz algo acontecer. Qualquer diferença, não importa qual, provoca alguma mudança. Engraçado falar isso diante de tanta desigualdade no mundo, mas percebam que dentro de cada grupo as pessoas ftendem a se proteger da dor pela busca de iguais. Estamos homogêneos demais. Um pensamento bobo, mas eficaz: "se eu achar alguém mais ou menos do meu jeito, isso prova que meu jeito tem respaldo na realidade, é um jeito viável, válido de ser - eu existo..."

Me pergunto quanto tempo perdemos com esse raciocínio (me perdoem a generalização, mas isso fortalece meus argumentos...), e quanto deixamos talvez de crescer pela diferença, nos aconchegando nos espelhos.

Uma pureza fraca, cada vez mais etérea, envolve minhas memórias, recentes e distantes. Fecho os olhos como se fosse personagem de uma propaganda de 15 segundos, 15 segundos desesperados buscando transmitir um significado eterno, mesmo que vazio, a tudo o que se mova. Abro os olhos e lá está minha vida sendo ela mesma de novo, só andando quando eu quero.

segunda-feira, agosto 04, 2003

Quebra

As coisas têm significados. Elas representam algo que corresponde a imagens e/ou sentimentos e/ou sensações nas mentes dos indivíduos. Quando um algo, pleno de significado, se quebra, isso gera um vazio. A necessidade de representação externa do significado permanece. O Mercado vê isso como nicho. A psicanálise vê isso como algo a ser trabalhado na mente do indivíduo. A medicina tem algumas doenças para explicar esse vazio em alguns indivíduos. A Política vê nesse vazio mais chance de poder mais poder. Os ninfomaníacos preenchem esse vazio com sexo. Os drogados, com drogas, os gordos com comida, os workaholics com work, os chocolatras, os pedófilos, os neuróticos, os masoquistas, os bailarinos, os engenheiros, os escritores, as p utas, os traficantes... somos frutos de quebras, e nossas quebras geram significados que se superpõem... normal, numa realidade onde carcaça vira adubo e buracos negros se alimentam destruíndo tudo para gerar tudo de novo.

sexta-feira, agosto 01, 2003

Ocupados? Cansados? Preguiçosos?

Caramba... Uma única colocação em um mês inteiro. Até esperei a virada do dia pra não macular essa beleza. E não me excluo de todas as considerações a seguir. Gostaram de "colocação" como tradução de "post"?
Estaremos assim tão ocupados que não achamos mais aquele minutinho pra compartilhar inquitações, como dito aí na apresentação? Será que a hipnótica dança do mundo ao qual temos de sobreviver ilude nossos olhos antes tão atentos a tantas mazelas (nossa, que bela aliteração, ninguém usa que é minha :Þ) do mundo que queríamos mudar? É preciso sair de férias de vez em quando, mesmo que isso custe um Natal mais miguelado, um tempo a mais com o carro velho, algumas baladas a menos com amigos queridos, o risco de aparecer alguém melhor para a posição na empresa, de ter uma boa idéia e estar longe do computador, a canseira da viagem de volta...
Talvez, por outro lado, estejamos cansados de tanto tentar (de novo t-t-t-t... mas essa é batida, dá pra procurar no google e achar um monte de letras de música) alertar-nos uns aos outros e de ficarmos antenados o tempo todo, para depois o assunto morrer e ninguém ter feito nada que mude significativamente a situação. É preciso sonhar, planejar e ter a coragem de correr riscos, talvez desnecessários aos olhos de quem apenas vê, mas urgentes para o brioco que coça desconfortavelmente entre as nádegas amortecidas de tanto sentar (t-t-t-t...) em cadeiras que perpetuam o estado das coisas, sobre rodinhas de plástico em pisos que imitam madeiras nobres.
Ou foi a preguiça que se apoderou de nós? Sim, a preguiça é que nos tem e não nós a ela... Nós, premiados com mentes livres para exercer o poder da vontade e da criatividade, mas livres também para se satisfazer com o básico imediato. Nós, agraciados com corpos capazes de construir e de comunicar, mas também facilmente sedutíveis pelo acolchoado no sofá, pela substância mais louca, pelo carinho mais intenso ainda que desprovido de verdadeiro afeto. Preguiçosos nós atados a falsas necessidades e prazeres superficiais (mudou!! s-s-s-s-s...).
Caramba...

terça-feira, julho 08, 2003

Um Mundo Reto

O Porra Louca e o Nerd são ambos loucos. O Workaholic e o Fanático religioso também. Eles são todos radicais - então, são retilíneos? E os Zen budistas e as pessoas que fazem ginástica e comem frango e salada todo dia, são equilibrados? E equilibrados são curvilíneos? E retilíneos são mais ou menos equilibrados que os curvilíneos?

Acho que tem pessoas que parecem não ter questões existenciais. São pessoas que não questionam regras e juízes, sua vida é tão prática e objetiva que a impressão que dá é de que eles simplesmente não sofrem as agrúras da vida, que nós, mortais emotivos, sofremos. O Ego delas está longe da superfície, podemos dizer que têm sangue frio, são mais analíticos e objetivos, porém não são holísticos, não enxergam o todo, e sua proximidade com uma pretensa "estratégia de vida" é inversamente proporcional à sua sensibilidade, proclamada e assumida. Num mundo "racional", onde empresas cortam itens da cesta básica para comprovar redução de custo no fim do ano; onde o mundo se resume a "otimizar" tudo, como uma olimíada onde os records devem ser batidos sempre até que os atletas possam pairar no ar como pensamentos, acho que aqueles que pensam e teorizam sobre sua existência, sobre sua condição humana, esses estamos em menor número. Quietos no nosso canto, fazemos alguma diferença pequena, abrimos uma cabeça, criamos algo novo, produzimos algum conhecimento que um dia será bem aproveitado. Talvez sejamos curvilíneos, afinal. E talvez sejamos o oposto dos retilíneos, oposto e obviamente complementar.

Na história vivemos eras de fé e de razão, alternadamente. O Século XX foi de razão exacerbada, e o XXI espera-se que seja a "nova era". Tenho minhas dúvidas. Acho que alguma(s) experiência(s) do século passado transformou(aram) o mundo num lugar duro demais. Algo não saiu do controle AINDA.

quinta-feira, junho 26, 2003

Nova interface do Blogger

Finalmente o Blogger transferiu o C.N.B. para a nova interface!

As duas principais novidades são:

- um campo para dar títulos aos posts, que aparecem com formatação especial;

- A possibilidade de mandar os posts novos por email a um endereço. Já configurei o brioco@coollist.com. Agora tudo que for postado lá (ou aqui, dependendo de onde você estiver lendo) será automaticamente redirecionado para a lista.

Dessa forma o Bloglet perde um pouco da utilidade. Mas continua valendo para quem quer ser avisado de atualizações no Brioco mas não assina a lista.

terça-feira, junho 17, 2003

Curvas e Retas
Não basta fazermos tudo da melhor maneira possível. Não basta, não satisfaz, não a mim, nem a muitos. Não basta um único gole ou trago, não nos bastam as parcas emoções que são traduções de um tempo "livre", não basta. Eu invejo e repudio aqueles que fingem que são plenos, que fingem se bastarem, que simulam uma independência entre suas vidas e a loucura que vislumbro todo dia. Não basta, coça MUUUUito, uma coceira que toleramos como aquela que ocorre a uma perna engessada: seguramos algum tempo, não prá sempre.
Não sei se o Curvilíneo é o oposto do Retilíneo, acho que existe toda a sorte de formatos antes e depois dos dois Arquétipos mencionados pelo Durval e rebatidos pelo Maurécio. Mas é inegável que tem um tipinho que finge, mais ou menos, que aquilo basta, que larga o corpo na onda e se deixa levar, na loucura da tradição que abrevia a vida ou na loucura da vida breve que aparentemente rompem com a tradição.
Será que temos sempre que nos auto-definir? Não basta fazermos nosso caminho da melhor maneira possível aos nossos olhos, à luz daquilo que conseguimos reter de bons e úteis ensinamentos, no caminho que já trilhamos?
Além do mais essa coisa de curvilíneo me lembra muito a mania por estereótipos e, como tudo na vida, inclusive o tempo e o espaço, é relativa. Nos momentos mais lúcidos (que eu acho mais lúcidos), olho para trás e vejo uma trajetória absolutamente reta, mas transportando-me para qualquer ponto fora de mim mesmo, vejo uma curva. Acredito que o que você quer dizer com "retílineo" seja o tipo de sujeito que nem imagina que existam pontos fora de si, a partir dos quais sua história de retidão possa ser vista como a mais torpe e insidiosa espiral em direção ao fogo dantesco.

segunda-feira, junho 16, 2003

Durval, o curvilíneo light

A esta altura vocês devem estar ansiosíssimos por saber como me auto-classifico nessa minha taxonomia particular. Já disse no título: curvilíneo, sim, mas ligth.

Sou curvilíneo por parte de mãe, e retilíneo por parte de pai. E como não é possível existir uma linha quase reta, sou um curvilíneo light.

Pronto, já satisfiz sua curiosidade.

Gabor, o falso retilíneo

Os curvilíneos não são necessariamente pessoas tristes, mas não há dúvida de que são mais felizes que os falsos retilíneos. Gabor é um deles.

Até pouco tempo, era um poço de curvilineidade, para desespero da sua família tradicional húngara.

Entrou em três faculdades de carreiras diferentes, e desistiu de todas antes de se formar. Fez dezenas de terapias, ortodoxas e heterodoxas, mas preferia não recomendar nenhuma. Só se apaixonava por meninas fora da colônia, e chegou a defender abertamente a causa palestina. Por alguns anos tornou-se vegetariano, e trocava as férias em resorts do Nordeste com a família por acampamentos em praias de nudismo do Sul.

Como se dava bem com informática, fez alguns cursos de programação e arranjou um emprego de nível técnico no departamento de processamento de dados de uma firma de contabilidade. Foi morar sozinho aos dezenove anos, num quarto-e-sala na Vila Madalena que comprou com uma herança recebida da avó, livrando-se finalmente de sua super-mãe húngara.

Aquela época foi talvez a mais feliz para Gabor. Apesar de uma certa solidão auto-imposta, sentia que estava livre para "curvar-se" à vontade. Comprou um violão, e passava muito tempo na varanda com vista para a Rua Purpurina dedilhando acordes recém-aprendidos das revistinhas. Entrou para um coral, e teve um relacionamento relâmpago com uma dançarina de flamenco que conheceu lá, de quem lembra sempre.

Viveu assim até trinta e tantos anos. Até que se cansou de andar em círculos, ou melhor, em curvas sinuosas e emaranhadas, que não o estavam levando a lugar nenhum, enquanto seus amigos já iam longe em suas trajetórias retas. Essa frustração parecia fazer piorar sua gagueira, problema de infância que tinha diminuído com o tempo, e que voltara com força.

Então casou-se com uma menina que conheceu no Clube Húngaro, amiga de uma prima sua, filha de um poderoso empresário. Mandou blindar o carro, como era praxe na família da esposa; eles até tinham desconto pela quantidade de encomendas. Aceitou um cargo de gerência na indústria de produtos pneumáticos do pai. É bom porque ele pode voltar mais cedo pra casa, e se dedicar ao seu hobby atual - jogar xadrez pela internet. Comprou um apartamento num condomínio com sala de ginástica e piscina aquecida, que ele não frequenta porque as do Clube Húngaro são melhores. O sala-e-quarto da Vila Madalena está alugado, e rende uns troquinhos por mês. Ele ainda tem o violão, dormindo dentro de uma capa de curvim, num canto da sala entre o home-theater e a piscina de bolinhas do filhinho. A gagueira, pode-se dizer, melhorou. Agora quando ela ameaça atacar, Gabor simplesmente para de falar, até que passe.

Arthurman, o retilíneo

Arthurman, the super-account-manager-business-senior-consultant, é um retilíneo convicto e bem sucedido. Experimentou algumas curvas na juventude, mas foi só para poder alegar imparcialidade na hora de defender a retilineidade que tanto prega.

Cortou o cabelo, vendeu o piano, e formou-se pela GV, com master business administration nos EUA. Orgulha-se de ser um self-made, e é constantemente assediado por head-hunters. Depois de uma década na área de supply chain, aceitou um cargo desafiador numa dotcom, trabalhando em novos projetos de e-commerce.

Diz-se enólogo amador, e frequenta um bistrô super-aconchegante da região da Berrini durante as happy-hours, onde consegue descolar excelentes safras de Bordeaux, que beberica enquanto acompanha as variações da Nasdaq e Dow-Jones pelo laptop (Intel Inside).

Conseguiu finalmente dar entrada num loft bem perto do business center onde trabalha. Se continuar recebendo productivity rewards como tem recebido, em breve vai poder realizar seu grande sonho: abrir o próprio negócio, uma adega on-line.

Arthurman chegou a comprar um novo piano recentemente, mas vendeu um mês depois, porque estava sem tempo de praticar. Além do mais, ele não combinaria com a decoração clean pretendida para o loft, que só fica pronto em 2004, mas ele já sabe exatamente quais móveis vai colocar.

sexta-feira, junho 13, 2003

Os Retilíneos

O termo foi empregado pela primeira vez com esse significado durante um papo com o Babel, e foi adotado por algumas pessoas do nosso círculo. Usamos para designar indivíduos que seguem à risca os scripts que receberam do mundo externo, sem nenhum desvio.

E nesse conceito não está implícito nenhum juízo de valor. Ser retilíneo em geral não é opção; a gente já nasce assim, ou não.

Os legítimos retilíneos são felizes, pois conseguem obter satisfação de coisas simples, como um novo aparelho de DVD ou um livro de Paulo Coelho. São plenamente integrados às suas famílias, têm um plano de carreira promissor, que inclui benefícios e promoções a intervalos regulares, são heterossexuais e casam-se com pessoas também retilíneas, raramente se separam, têm 2 filhos saudáveis, não usam drogas, praticam exercícios físicos e assistem bastante TV. Costumam dar muita risada de piadas de salão, e alguns são muito talentosos ao contá-las.

Às vezes os retilíneos experimentam alguma ansiedade ao serem abordados por mendigos nos semáforos, mas não é nada que dure mais que o tempo de um sinal vermelho.

Esse felizardos desenvolveram mecanismos eficazes contra as dúvidas, e as frustrações que delas possam advir. Não por possuírem todas as respostas, mas simplesmente por não fazerem perguntas complicadas. Os retilíneos não "polemizam". Têm anticorpos contra problemas que não sejam os seus, e uma habilidade notável para classificar a maioria deles nessa categoria (não-seus). Sobram alguns poucos problemas para eles, mas as respostas estão todas prontas lá no script; é só questão de consultar, como quando se quer programar o videocassete e a gente lê o manual.

Os retilíneos vêm com manual ao nascerem.

quinta-feira, junho 12, 2003

Os Tubarões e o Homens


Os homens construíram um porto. Para isso, desviaram o curso de rios, fazendo com que manguezais secassem.

Sem manguezais, os peixes sumiram. Sem peixes, os tubarões ficaram famintos e furiosos.

Resolveram os dois problemas - a fome e a fúria - de uma vez só.

Passaram a comer homens.

quarta-feira, junho 11, 2003

Sinos Dobram

Por quem chorarei? Quem me fará derramar lágrimas em seu velório? Das centenas de pessoas que conheço, quais serão aquelas que me farão sentir um aperto enorme no peito, aquelas que me farão realmente falta quando da sua ausência?

Escrever isso me causou estranheza, estranheza fria, por ser verdade. No grupo dos que nada me causam, eu posso incluir próximos extremamente distantes. No grupo dos que me movem, incluo próximos extremamente recentes. Questiono o sentido de vínculo. Questiono o sentir, o sentimento em si, e, ao fazer isso, questiono a mim mesmo. Deixo de me encarar como ser humano íntegro, e me assumo como um apanhado de fragmentos de idéias mais ou menos completas. Uma realidade onde a Verdade deixou de existir. Tradição, aquilo que você traz, perde parte de seu significado "trazido" - a bagagem muda, nada será como antes, nunca mais.

sexta-feira, junho 06, 2003

O futuro não é mais como era antigamente. Antigamente eu ahava que a vida começava aos 21, que com 21 eu seria perfeito de mente, de corpo, de grana, que eu seria menos reticiente, teria mais atitude, teria mais certezas. E eu tinha certeza de que seria dessa forma. Com o tempo, fui percebendo que minhas incertezas foram crescendo, crescendo... Entropia pura!!!! Acho que é isso que os adultos da minha infância teimavam chamar de sabedoria. Sabedoria é você ter vivenciado coisas demais e ter tentado tirar algumas conclusões dessas vivências. Sabedoria é perceber que a maioria das vivências devem ter sido inúteis, mas tinham que ser vividas por algum motivo, talvez simplesmente porque é assim que os seres vivos fazem - eles vivem.

Eu olho para meus pais, olho para meus avós e vejo a inexorável velhice ir se apoderando, pouco a pouco, de cada um. A velhice não se apodera só dos velhos, a velhice é o termo que usamos pra definir o tempo que está teoricamente mais próximo do final, mas no fundo é tudo tempo, é x vidas a menos no videogame... e a conclusão que tiro, olhando as vidas dos velhos próximos a mim continua sendo a mesma: estamos num barco, numa corredeira que não para, não seca nem congela. Podemos pescar durante o caminho, podemos por a mão na água, podemos desviar das pedras ou podemos não fazer nada.

quinta-feira, junho 05, 2003

"Quando vamos parar de repensar a matriz energética e, efetivamente, criar uma nova, mais adequada aos tempos atuais?"


Respondendo ao seu texto, Maurécio, acredito que em breve - quem trabalha com isso é o Daniel - Vejam o texto abaixo, retirado da folha (uma edição de maio):

TECNOLOGIA

Composto sintetizado por pesquisadores dos EUA armazena gás para uso em células de combustível de carros
Nova liga pode deflagrar era do hidrogênio

CLAUDIO ANGELO
EDITOR-ASSISTENTE DE CIÊNCIA

Uma nova categoria de material, produzido a baixo custo por uma reação simples de laboratório, pode ser exatamente o que a indústria estava esperando para acelerar a entrada no mercado de carros movidos a hidrogênio. Esse material, sintetizado por um grupo de químicos dos EUA, tem a capacidade de estocar grandes quantidades do gás em sua estrutura, em condições normais de temperatura e a baixa pressão.
O uso do hidrogênio em substituição ao petróleo é uma das grandes apostas para o futuro energético do planeta. A célula de combustível, uma espécie de pilha que processa hidrogênio gasoso para produzir eletricidade e água, é a esperança dos ambientalistas e de algumas empresas automobilísticas para a produção de carros "limpos". Com uma vantagem adicional: o hidrogênio (H2) é o elemento mais abundante do Universo.
Os problemas da anunciada "economia do hidrogênio" são basicamente três. Primeiro, o hidrogênio não existe livre na natureza -está combinado ao oxigênio ou a outros elementos. Depois, células de combustível são caras demais. Por fim, o hidrogênio gasoso é altamente inflamável e difícil de estocar com segurança em tanques de carro.
Em um estudo na edição de hoje da revista científica "Science" (www.sciencemag.org), uma equipe liderada por Nathaniel Rosi, da Universidade de Michigan, diz ter chegado perto de resolver o terceiro problema.
Eles criaram uma série de compostos organometálicos (com um metal, no caso zinco, associado a uma molécula orgânica) com a capacidade de estocar de 1% a 9,1% de seu peso em hidrogênio. A temperaturas altas, essa capacidade pode chegar a 17,2%. O H2 fica ligado temporariamente à estrutura e é liberado para a célula de combustível com um esquentamento leve ou com um pequeno alívio na pressão.
A meta mundial para que esse tipo de armazenagem tenha aplicação comercial é 6,5% do peso do composto em hidrogênio.
"Eu, se fosse uma companhia automobilística, estaria interessado na descoberta", disse à Folha o químico jordaniano-americano Omar Yaghi, da Universidade de Michigan, co-autor do estudo.
Yaghi diz que seu grupo trabalha há 12 anos com estruturas químicas capazes de absorver moléculas e liberá-las. Os compostos, batizados MOFs (ou estruturas organometálicas), foram desenhados sob medida pelos pesquisadores. Eles se parecem com cubos de arame, no interior dos quais moléculas de hidrogênio gasoso podem ficar armazenadas de maneira estável.
Outros compostos, como nanotubos de carbono e hidretos metálicos (ligas metálicas com hidrogênio), têm sido pesquisados para estocar o elemento. No Brasil, hidretos metálicos desenvolvidos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Unicamp já têm capacidades de estocagem de 4% e 3%, respectivamente.
"O problema dos hidretos é que, além de serem pesados demais, eles requerem muita energia para liberar o hidrogênio. E nanotubos só funcionam sob alta temperatura", disse Yaghi.
O pesquisador, cujo grupo trabalha com financiamento da empresa Basf, acredita que em um a dois anos deverá atingir o nível comercial de absorção de hidrogênio a temperatura ambiente. "Temos a chave para o que faz de um material um grande armazenador de hidrogênio", afirmou.
Vejam o Mundo Perfeito de hoje, ou a notícia no Terra Notícias (e em vários outros lugares).
Alguém tinha alguma dúvida de que esse, se não fosse o único motivo para a invasão, estava entre os principais e com destaque?
Por outro lado, vemos a importância dada ao combustível fossil, que sabemos ser limitado e extremamente poluente - além da concentração de capital que provoca. Nós, o Brasil, já éramos citados em 1982 no Ponto de Mutação, do Fritjof Capra, por nossas pesquisas e utilização do álcool combustível. Uma fonte de energia cujo ciclo (da absorção da energia solar até a obtenção do combustível em sua forma de utilização) é relativamente curto. Temos ainda várias outras possibilidades, principalmente quando pensamos globamente e agimos localmente: parques de energia eólia e solar, cujas produções não devem pretender suprir toda uma nação, mas apenas as redondezas de seu local de geração; outras formas de biomassa - além da cana, outros vegetais são propícios à obtenção de álcool e produtos interessantes; e o metano que pode ser obtido da fermentação do lixo orgânico e dos esgotos - dando ainda como subprouto, ótimos fertilizantes orgânicos.
Quando vamos parar de repensar a matriz energética e, efetivamente, criar uma nova, mais adequada aos tempos atuais?
Lembro-me de uma das primeiras coceiras, quando ainda nem tínhamos uma lista de discussão, apenas um email inicial e várias respostas com cópias para todo mundo. Falava sobre as recomendações de um delegado para diminuirmos o risco de assalto em semáforos de trânsito. Minha indignação foi o tolhimento da liberdade de ir e vir.
Hoje recebi um email sobre uma "nova modalidade de assalto", e recebi duas vezes:
"Você e seus amigos estão num bar, batendo papo, tomando uma cervejinha e se divertindo. De repente, chega um indivíduo e pergunta de quem é o carro tal, com placas tal, estacionado na rua, solicitando que o(a) mesmo(a) dê um pulinho lá fora para manobrar o carro, que está dificultando a saída de outro. Você, bastante solícito(a), vai e, ao chegar ao seu carro, anunciam o assalto e levam seu carro e mais pertences. E ainda tem sorte se não levar um tiro.Numa mesma noite o resgate da Polícia Militar atendeu três pessoas baleadas, todas envolvendo a mesma história. Repasse esta notícia para alertar seus amigos...não custa nada prevenir."
Bom, desta vez temos o abuso à boa vontade e, ainda, continuamos com a ineficácia do policiamento - que, de passagem, não é culpa exclusiva das instituições responsáveis, polícias e governos, mas também de toda uma estrrutura social que já não se suporta mais. Mas o mais importante é que se cada um de nós lembrar da velha máxima de não fazer aos outros aquilo que não gostaria que fizessem consigo, nós nunca estacionaremos nossos veículos de maneira a bloquear garagens ou impossibilitar as manobras de quem já está estacionado.

quarta-feira, junho 04, 2003

Hoje de manhã ouvi um belo absurdo naquele "Conexão Rio-São Paulo" da CBN.
Os caras disseram, acho que era o Pioto falando, que a quantidade de seqüestros relâmpago está muito acima do razoável.
Por Tutatis!! diria Asterix.... existe algum número positivo (ou seja, maior que ZERO) que seja uma quantidade razoável de ocorrências dessa natureza?

sexta-feira, maio 30, 2003

Ah, então é assim aqui dentro?!? Muito bom.
Atendendo ao clamor do Maurécio, vou tentar ajudá-lo a deixar isso aqui menos parado e abandonado.
Então vou começar a escrever. Acho que pra que nos habituemos ao Blog, temos que tornar o link entre a lista e o site mais dinâmico. Proponho aos briocos que as discussões sejam feitas daqui,e que toda vez que alguém publicar algo novo, envie para a lista com link para a página.


segunda-feira, maio 26, 2003

Isso aqui tá muito parado. Abandonado.

quinta-feira, maio 08, 2003

Sobre o pronunciamento do Sr. Deputado Coronel Ubiratan na 13ª Sessão Ordinária da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, em 02/04/2003.

Assim como o Silney respondeu na lista de emails, também acho que o Coronel tocou em questões complicadas e, em boa parte delas, a minha posição a respeito é muito semelhante à dele.

É bem verdade que o filme Carandiru, assim como o livro em que foi baseado, expõe apenas o ponto de vista do médico, que, por sua vez, foi construído com base apenas nas histórias dos presos e no seu dia-a-dia num local a que nenhum outro homem livre teve acesso. Isto é claramente anunciado tanto no livro quanto no filme. Acho que no livro é no começo mesmo, não estou certo. No filme, o aviso vem no fim, antes dos letreiros. Faz todo o sentido - a arte do cinema funciona melhor quando o espectador não tem pré-julgamentos.

E por falar em pré-julgamentos, discordo do Coronel quanto critica o fato de que o filme erra ao só mostrar um lado. Um filme é um filme é um filme. E seus realizadores têm todo o direito de mostrar o que quiserem, verdades parciais, mentiras... desde que sejam claros quanto a seus objetivos. E o deste filme é mostrar um lado, o mesmo que é mostrado no livro.

Por outro lado, mas ainda falando de pré-julgamentos, quase nada no mundo é 8 ou 80, e como há ainda processos em andamento, concordo com o Coronel quando ele diz recear que o filme influencie o julgamento destes processos, de maneira visivelmente tendenciosa. Acho que a arte é livre, mas as pessoas que praticam esta liberdade devem levar em conta seus efeitos. Se a intenção do Babenco era usar seu poder de comunicação para inluenciar estes processos, ele pode ter conseguido, ao menos tentou. Mas se fez o filme sem pensar nesta questão, então ele errou.

No mais, concordo com o Deputado Coronel, em tudo o que diz neste pronunciamento (segundo a transcrição que recebi), especialmente quanto ao alvoroço da mídia sobre a dor de barriga do Beira-Mar e o descaso da mesma com a situação lamentável de tantas crianças e adultos, jovens e velhos... Na verdade, muito me preocupa o foco de atenção de todas as instâncias do poder público, até a presidência, com este e tantos outros marginais, quando a maioria destas instâncias deveria estar fazendo o seu trabalho, com a certeza de que as instituições apropriadas estariam cuidando da marginalidade.

quarta-feira, maio 07, 2003

E o Rio de Janeiro, continua lindo? Fala sério, tá dominado. E acho que não dedmora muito pra São Paulo ficar no mesmo nível.

terça-feira, abril 29, 2003

Pneumonia asiática, ou SARS. Epidemia? Até os EUA estão com medo. Sinal dos tempos?
Conhecida há alguns meses, só virou notícia depois da guerra. Sinal de alguma coisa?

E como sempre continua-se procurando soluções dentro do mecanismo "uma doença, um microorganismo".
Será que se esquecem do desequilíbrio provocado por nossa sociedade baseada em exploração e crescimento supostamente infinito?
Nesse mundo conturbado e poluído, nossos organismos mantidos à base de alimentos industrializados e desfigurados de suas benéficas propriedades naturais não conseguem se defender eficazmente de um micróbio que, de outra maneira, poderia passar por nós sem que percebêssemos, e que, talvez, nem se multiplicassem tanto e tão velozmente.

Foi assim com o HIV. Com o Ebola e variantes Agora esse coronavírus.
Quem disse que nosso modo de vida APENAS DESTRÓI a biodiversidade?
Os comentários não estão funcionando direito. Arrumo assim que descobrir como.
Galera, que coisa.... parece que ninguém tá incomodado demais com coisa alguma. Bom, é compreensível. Afinal, o dólar tá caindo, a gasolina deve acompanhar o movimento, as importantes reformas estruturais serão apresentadas ao congresso ainda neste semestre, o superávit engorda a olhos vistos, meu time apanha tanto que nem acompanho mais. Ou talvez seja a ressaca da guerra, que saiu do grande destaque da mídia, após esta ter feito seu papel de apaziguar os ânimos mais exaltados de quem protestava e ter conseguido a complacência e, em alguns casos, até a simpatia para com a dupla de atacantes Bush & Blair.
Talvez tenha sido um mau momento para o lançamento deste blog...

Mas, meus amigos, a queda livre do dólar revela outro lado da questão: os exportadores do setor agro-pecuário estão alarmados, porque dependem do câmbio. Porque não têm o amparo de uma política que mantenha saudável sua atividade. Porque a população brasileira não tem dinheiro para comprar seus produtos. Porque se consome muito mais do que o necessário, mas se produz ainda mais, e ainda tudo se concentra em poucas mãos. A gasolina mais barata deve provocar um ligeiro relaxamento na atitude de poupança da galera - e com isso, mais divisas se esvaindo pelo ralo das grandes corporações multinacionais, e mais poluição no nosso triste ar de outono, e mais engarrafamentos no dia-a-dia e na saída para as viagens, e mais stress e violência no trânsito. Já as reformas são necessárias e a pressa também, mas a coisa tá sendo bem feita? Alguém tá acompanhando isso? Os grandes sugadores do nosso potencial de geração de riqueza serão extirpados dos vasos sangüíneos da máquina administrativa, também tão merecedora de uma reforma completa?

E os dois peronistas disputando o segundo turno das presidenciais na Argentina? Será que essa eleição em nada nos afeta? E quem é o novo presidente do Paraguai? Novo numas, porque continua sendo o mesmo partido no poder a mais de 50 anos. Será que serão bons companheiros de luta, junto a formação da Alca e na abertura de novos mercados, contra o poderio financeiro e insitucional dos Estados Unidos?

E a fome e a deseducação da criançada brasileira? E a fome do sertanejo nordestino? E a exploração desequilibrada das nossas águas doces e salgadas, de nossas florestas equatoriais e tropicais? Tudo isso continua incomodando, enquanto a guerra vai terminando e deixando novos flancos de exploração para a sanha imperialista e expansionista dos Estados Unidos e da Inglaterra...

E a Marta e nossa desvairada capital financeira do pais? Poluição, violência, transportes decadentes, SUS, educação fundamental, tá tudo aí, na mesma que antes da guerra... tava bom, por acaso, pra deixar como estava?

Fora as relações des-humanas, cada vez mais baseadas em interesses mesquinhos ou superficialidades a título de manter um tecido social que já não passa da mais tosca juta de saco de farinha...

segunda-feira, abril 28, 2003

Francis, faltou vc publicar seu texto. Tem uma opção "Publish" que aparece à direita na barra central da página de edição, quando há edições a publicar. Ou então, a opção "Post & Publish" ao lado da "Post". Desta vez já está feito.

Espero que os convites aqui sejam publicados convites à reflexão e ao debate, ao invés de festas e outros eventos. E que as reclamações sejam sempre acompanhadas de sugestões. E ainda que as discussões sejam o prato principal.
Vamos lá, mais um lugar para discussões, convites e reclamações.
Ah!, administrador? Nunca. Nem sei como fazer isso.......
Abraços a todos.
Fran.

sábado, abril 26, 2003

De um comentário e sua resposta, surgiu um desabafo. E outro em resposta.
Com muitos destinatários, vários pediram pra sair e outros foram incluídos.
Virou grupo de discussão no Yahoo! e assim está durando,
com fases de grande atividade e com invernos glaciais.

Não suponho que as coceiras parem, nestes invernos.
Apenas que outras demandas atraiam a atenção dos olhos de tantos briocos
sentados em suas cadeiras diante de bytes e pixels
que valem o sustento de seus cérebros privilegiados
- privilegiados por terem tido o desenvolvimento que tiveram, sem detrimento de terceiros
- e privilegiados por uma sociedade que paga o que a ela interessa, sem querer saber se isso é bom ou mau para o todo, em detrimento de quem nada pode oferecer-lhe que lhe seja útil em sua estreita visão.

Tanto tempo depois, alguém teve a idéia de fazer um site.
Falaram também em blog.
Fazer um site demanda um saber que não tenho e um tempo de que não posso dispor agora, para aprender e para manter.
Talvez alguém saiba ou queira aprender e possa e queira fazer.
Mas disposição não falta. Então ei-lo, o blog Coceira no Brioco.